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A verdadeira sabedoria é saber o quão pouco nós realmente sabemos.

Sócrates

Apostila

Filosofia e mito


A filosofia ocidental teve seu início na Grécia antiga. A palavra "filosofia" – philosophia é uma palavra de origem grega. Philo vem de philia, que tem a ver com companheirismo, amor fraterno, amizade. Sophia vem de sophos, que quer dizer sábio. Assim, em geral, quando se parte da etimologia da palavras, temos que “filosofia” é o amor pelo saber, a amizade profunda à sabedoria; e o filósofo, então, é aquele que tem um apreço especial pela sabedoria. A filosofia, nesta perspectiva grega, é uma atividade que visa levar ao saber. E sua história, para a maioria dos manuais, tem como primeiro adversário o mito, que, aos olhos do filósofo, não estaria preocupado em levar ao saber, ao conhecimento, tomando aqui a palavra conhecimento como saber verdadeiro, não contraditório, que não busca causas em relações sobrenaturais, mas em relações naturais. A palavra mito também tem uma origem grega, ela vem de mythos. Há dois verbos que confluem para mythos: mytheo, que tem a ver como a conversação e a designação, e mytheyo, que tem a ver com a narração, com o contar algo para outro. O mito narra algo que é inquestionável para quem está inserido fielmente na atividade de ouvi-lo. Ele tem a função de dizer algo que tal pessoa acredita sem que venha pensar muito de modo a colocá-lo em dúvida. Seu papel é de informar e dar sentido à existência de quem crê nele, mas, principalmente, o de socializar as pessoas e criar uma comunidade que forma o "nós", os que se organizam socialmente da mesma forma, exatamente porque, entre o que possuem de comum, o mito é não só alguma coisa forte, mas é exatamente a narrativa (única) que diz o que é comum para este “nós”.

Cosmogonia e cosmologia

As cosmogonias são de certa forma, narrativas sobre as origens do mundo. Em geral elas estão presentes nos mitos, isto quando não são a sua essência. Falam de união sexual entre deuses, que geram o mundo, ou união sexual entre deuses e humanos, que em geral criam situações complexas e dão o enredo a uma história que explica divisões, guerras, ciúmes, paixões, disputas sobre a justiça, etc. As cosmologias já estão mais para o campo do pensamento filosófico do que para o pensamento mitológico. Para vários autores da história da filosofia, elas são a origem do pensamento filosófico, e outros, mais propensos a verem continuidade do que rupturas na história do pensamento tendem a ver as cosmologias como o início do pensamento cientifico. As cosmologias são teorias a respeito da natureza do mundo. As cosmologias são genealogias, diferentemente, as cosmologias são conhecimento a respeito de elementos primordiais, mas naturais. O pensamento cosmológico remete à phýsis, a palavra grega que tem a ver com o que é eterno e de onde tudo surge, nasce, brota. Trata-se de um elemento imperecível, que gera todos os outros elementos naturais, que são perecíveis.

Filosofia – definição.

É difícil dar-se uma definição genérica de filosofia, já que esta varia não só quanto a cada filósofo ou corrente filosófica, mas também em relação a cada período histórico. Atribui-se a Pitágoras a distinção entre a sophia, o saber, e a philosophia, que seria a "amizade ao saber", a busca do saber. Com isso se estabeleceu, já desde sua origem, uma diferença de natureza entre a ciência, enquanto saber específico, conhecimento sobre um domínio do real, e a filosofia que teria um caráter mais geral, mais abstrato, mais reflexivo, no sentido da busca dos princípios que tornam possível o próprio saber. No entanto, no desenvolvimento da tradição filosófica, o termo “filosofia” foi freqüente-mente usado para designar a totalidade do saber, a ciência em geral, sendo a metafísica a ciência dos primeiros princípios, estabelecendo os fundamentos dos demais saberes. O período medieval foi marcado pelas sucessivas tentativas de conciliação entre razão e fé, entre a filosofia e os dogmas da religião revelada, passando a filosofia a ser  considerada ancilla theologiae, a serva da teologia, na medida em que fornecia as bases racionais e argumentativas para a construção de um sistema teológico, sem, contudo, poder questionar a própria fé. O pensamento moderno recupera o sentido da filosofia como investigação dos primeiros princípios, tendo, portanto, um papel de fundamento da ciência e de justificação da ação humana. A filosofia critica, principalmente a partir do Iluminismo, vai atribuir à filosofia exatamente esse papel de investigação de pressupostos, de consciência de limites, de crítica da ciência e da cultura. Pode-se supor que essa concepção, mais contemporânea, tem raízes no ceticismo, que, ao duvidar da possibilidade da ciência e do conhecimento, atribuiu à filosofia um papel quase que exclusivamente questionados. Na filosofia contemporânea, encontramos assim, ainda que em diferentes correntes e perspectivas, um sentido de filosofia como investigação crítica, situando-se, portanto, em um nível essencialmente distinto do da ciência, embora intimamente relacionado a esta, já que descobertas científicas muitas vezes suscitam questões e reflexões filosóficas e freqüentemente problematizam teorias científicas. Essa relação reflexiva entre a filosofia e os outros campos do saber fica clara, sobretudo, nas chamadas "filosofia de": filosofia da ciência, filosofia da arte, filosofia da história, filosofia da educação, filosofia da matemática, filosofia do direito etc.

Mito (gr. mythos: narrativa, lenda)

1. Narrativa lendária, pertencente à tradição cultural de um povo, que explica através do apelo ao sobrenatural, ao divino e ao misterioso, a origem do universo, o funcionamento da natureza e a origem e os valores básicos do próprio povo. Ex.: o mito de Ísis e Osíris, o mito de Prometeu etc. O surgimento do pensamento filosófico-científico na Grécia antiga (séc.Vl a.C.) é visto como uma ruptura com o pensamento mítico, já que a realidade passa a ser explicada a partir da consideração da natureza pela própria, a qual pode ser conhecida racionalmente pelo homem, podendo essa explicação ser objeto de crítica e reformulação; daí a oposição tradicional entre mito e logos.
2. Por extensão, crença não-justificada, comumente aceita e que, no entanto, pode e deve ser questionada do ponto de vista filosófico. Ex.: o mito da neutralidade científica, o mito do bom selvagem, o mito da superioridade da raça branca etc. A critica ao mito, nesse sentido_produziria uma desmistificação dessas crenças.
3. Discurso alegórico que visa transmitir uma doutrina através de uma representação simbólica. Ex.: o mito ou alegoria da caverna e o mito do Sol, na República de Platão.

Os pré-socráticos

Os pensadores pré-socráticos viveram no "mundo grego", mas nem todos antes de Sócrates. Alguns sim, outros não. Eles viveram entre o século sete e o meio do século quarto A.C. Sócrates nasceu em 470 e morreu em 399 A.C. (todas as datas, antes de Cristo, são, na sua maioria, estimativas). Uma boa parte desses pensadores foram, antes de tudo, cosmólogos. E vários deles trabalharam em um sentido reducionista, isto é, tentaram encontrar uma substância única, ou força exclusiva, ou princípio básico capaz de ser apresentado como o elemento efetivamente real e primordial do cosmos. A filosofia dos Pré-socráticos (Filósofos da Natureza) voltava o seu pensamento para a origem (racional) do mundo, do cosmos. Ou seja, estes filósofos dedicavam-se às investigações cosmológicas, buscando a arché (o princípio fundamental de todas as coisas). De seus escritos quase tudo se perdeu, restando apenas poucos fragmentos. Cosmologia: estudo, teoria ou descrição dos cosmos, do universo.

Alguns filósofos

Tales de Mileto (640-548 a.C.) – É considerado “o pai da filosofia grega”. Para ele a água seria o elemento primordial (a arché) de tudo o que existe. Atribui-se a Tales a demonstração do primeiro teorema de geometria (embora o estudo sistemático desta ciência tenha realmente começado na escola de Pitágoras, no séc. VI a.C.).

Anaximandro de Mileto (610-547 a.C.) – o principio gerador de todas as coisas, segundo Anaximandro, seria o apeiron (ilimitado / indeterminado / que não tem limite / infinito). A ordem do mundo surgiu do caos em virtude deste princípio. Assim, o aperion seria o principio original de todos os seres, tanto de seu aparecimento quanto de sua dissolução.

Anaxímenes de Mileto (588-524 a.C) – Segundo este pensador, o elemento gerador de tudo é o ar. Através da rarefação e da condensação, o ar forma tudo o que existe. “Da mesma maneira que a nossa alma, que é ar, nos mantém vivos, também o sopro e o ar mantém o mundo inteiro”.

Heráclito de Éfeso (séc. VI-V a.C) – É conhecido como o filósofo do devir, da mudança. De acordo com Heráclito, o logos (razão/inteligência /discurso / pensamento) governa todas as coisas, e está associado ao fogo, gerador do processo cósmico. Tudo está em incessante transformação “panta rei” (tudo flui). As coisas estão, pois, em constante movimento, nada permanece o mesmo (“não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”). Todavia, não se deve deduzir dessa afirmação que Heráclito defendeu uma teoria da mudança contínua desregrada. Ao contrário, ele entendia que havia uma lógica - o logos – governando tal mudança contínua.

Parmênides de Eléia (544-524 a.C.) - Para Parmênides, o ser é uno, imóvel, eterno, imutável. Desse modo, o devir, a mudança, seria ilusão e simples aparência; o movimento é, assim, engano dos nossos sentidos. “O ser é, o não-ser não é”. Ou seja: o ser imutável, eterno, permanente das coisas, é o único que existe, enquanto o não-ser, que seria a mudança, não existe.

Pré-socráticos – Definição

Termo que designa, na história da filosofia, os primeiros filósofos gregos anteriores a Sócrates, também denominados fisiólogos por se ocuparem com o conhecimento do mundo natural (physis). Tales de Mileto (640-c. 548 a.C.) é considerado, já por Aristóteles, como o "primeiro filósofo", devido à sua busca de um primeiro princípio natural que explicasse a origem de todas as coisas. Tales é tido como fundador da escola jônica, que inclui seu discípulo Anaximandro. As principais escolas filosóficas pré-socráticas, além da escola jônica, são: a atomista, incluindo Leucipo (450-420 a.C) e Demócrito (c.460-c. 370 a.C.); a pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos (século VI a.C.); a Eleata, de Xenófanes (século VI a.C.) e Parmênides (c.510 a.C.) e seu discípulo Zenão; a mobilista, de Heráclito (c.480 a.C.). Com Sócrates e os sofistas, a filosofia grega toma novo rumo, sendo que a preocupação cosmológica deixa de ser predominante, dando Lugar a uma preocupação maior com a experiência humana, o domínio dos valores e o problema do conhecimento. Ver jônica, escola; atomismo; pitagorismo; eleatas; mobilismo; sofista.

Sócrates e os sofistas


Sócrates (c.470-399 a.C.)

A vida de Sócrates nos é contada por Xenofonte (em suas Memorabilia) e por Platão, que faz dele o personagem central de seus diálogos, sobretudo Apologia de Sócrates e Fédon. Ele nasceu em Atenas. Sua mãe era parteira, seu pai escultor. Recebeu uma educação tradicional: aprendizagem da leitura e da escrita a partir da obra de Homero. Conhecedor das doutrinas filosóficas anteriores e contemporâneas (Parmênides, Zenão, Heráclito), participou do movimento de renovação da cultura empreendido pelos sofistas, mas se revelou um inimigo destes. Consolidador da filosofia, nada deixou escrito. Participou ativamente da vida da cidade, dominada pela desordem intelectual e social, submetida à demagogia dos que sabiam falar bem. Convidado a fazer parte do Conselho dos 500, manifestou sua liberdade de espírito combatendo as medidas que julgava injustas. Permaneceu independente em relação às lutas travadas entre os partidários da democracia e da aristocracia. Acreditando obedecer a uma voz interior, realizou uma tarefa de educa-dor público e gratuito. Colocou os homens em face da seguinte evidência oculta: as opiniões não são verdades, pois não resistem ao diálogo critico. São contraditórias. Acreditamos saber, mas precisamos descobrir que não sabemos. A verdade, escondida em cada um de nós, só é visível aos olhos da razão.

Acusado de introduzir novos deuses em Atenas e de corromper a juventude, foi condenado pela cidade. Irritou seus juízes com sua mordaz ironia. Morreu tomando cicuta. E conhecido seu famoso método, sua arte de interrogar, sua "maiêutica", que consiste em forçar o interlocutor a desenvolver seu pensamento sobre uma questão que ele pensa conhecer, para conduzi-lo, de conseqüência em conseqüência, a contradizer-se, e, portanto, a confessar que nada sabe. As etapas do saber são: a) ignorar sua ignorância; b) conhecer sua ignorância; c) ignorar seu saber; d) conhecer seu saber. Sua famosa expressão "conhece-te a ti mesmo" não é uma investigação psicológica, mas um método de se adquirir a ciência dos valores que o homem traz em si. "O homem mais justo de seu tempo", diz Platão, foi conde-nado à morte sob a acusação de impiedade e de corrupção da juventude.

Seria sua morte o fracasso da filosofia diante da violência dos homens? Ou não indicaria ela que o filósofo é um servidor da razão, e não da violência, acreditando mais na força das idéias do que na força das armas?

Maiêutica (do gr. maieutiké: arte do parto)

1. No Teeteto, Platão mostra Sócrates definindo sua tarefa filosófica por analogia à de urna parteira (profissão de sua mãe), sendo que, ao invés de dar à luz crianças, o filósofo dá à luz idéias. O filósofo deveria, portanto, segundo Sócrates, provocar nos indivíduos o desenvolvimento de seu pensamento de modo que estes viessem a superar sua própria ignorância, mas através da descoberta, por si próprios, com o auxílio do "parteiro", da verdade que trazem em si.

2. Enquanto método filosófico, praticado por Sócrates, a maiêutica consiste em um procedimento dialético no qual Sócrates, partindo das opiniões que seu interlocutor tem sobre algo, procura fazê-lo cair em contradição ao defender seus pontos de vista, vindo assim a reconhecer sua ignorância acerca daquilo que julgava saber. A partir do reconhecimento da ignorância, trata-se então de descobrir pela razão, a verdade que temos em nós. Ver dialética; reminiscência: método.

3. 0 modelo pedagógico conhecido como "socrático" inspira-se na maiêutica como forma de ensinar os indivíduos a descobrirem as coisas por eles mesmos.

Ironia (lat. ironia, do gr. eironeia: dissimulação)

Recurso de expressão que parece indicar o oposto do que se pensa sobre algo. Ex.: elogia-se quando se quer depreciar, chama-se de "grande" algo obviamente pequeno etc. A ironia como forma de argumentação é utilizada por Sócrates para revelar a seu interlocutor sua própria ignorância, relacionando-se, portanto, à maiêutica. “Na ironia, o homem anula. na unidade de um mesmo ato, aquilo que coloca, faz crer para não ser acreditado, afirma para negar e nega para afirmar" (Sartre).

Metafísica – definições

1. O termo "metafísica" origina-se do título dado por Andronico de Rodes, principal organizador da obra de Aristóteles, por volta do ano 50 a.C., a um conjunto de textos aristotélicos — ta meta ta physikd – que se seguiam ao tratado da fisica, significando literalmente "após a física", e passando a significar depois, devido a sua temática, "aquilo que está além da física, que a transcende".

2. Na tradição clássica e escolástica, a meta-física é a parte mais central da filosofia, a ontologia geral, o tratado cio ser enquanto ser. A metafísica defini-se assim como filosofia primeira, como ponto de partida do sistema filosófico, tratando daquilo que é pressuposto por todas as outras partes do sistema, na medida em que examina os princípios e causas primeiras, e que se constitui como doutrina do ser em geral, e não de suas determinações particulares; inclui ainda a doutrina do Ser Divino ou do Ser Supremo.

3. Na tradição escolástica, especificamente, temos uma distinção entre a metafísica geral, a ontologia propriamente dita, que examina o conceito geral de ser a realidade em seu sentido transcendente: e a metafísica especial, que trata de domínios específicos do real e que se subdivide, por sua vez, em cosmologia, ou filosofia natural – o tratado do mundo e da essência da realidade material; psicologia racional, ou tratado da alma, de sua natureza e propriedades; e teologia racional ou natural, que trata do conhecimento de Deus e das provas de sua existência através da razão humana (e não apenas pelo apelo à fé).

4. No pensamento moderno, a metafísica perde. Em grande parte, seu lugar central no sistema filosófico, uma vez que as questões sobre o conhecimento passam a ser tratadas como logicamente anteriores à questão do ser, ao problema ontológico. A problemática da consciência e da subjetividade torna-se assim mais fundamental. No desenvolvimento desse pensamento, sobretudo com Kant, a filosofia crítica irá impor limites às pretensões de conhecimento da metafísica, considerando que devemos distinguir o domínio da razão, que produz conhecimento, que possui objetos da experiência, que constitui a ciência, portanto, do domínio da razão especulativa, em que esta se põe questões que, em última análise, não pode solucionar, embora essas questões sejam inevitáveis. Teríamos, portanto, a metafísica. Kant vê solução para as pretensões da metafísica apenas no campo da razão prática. Isto é, não do conhecimento, mas da ação, da moral. "A metafísica, conhecimento especulativo da razão isolada e que se eleva completamente para além dos ensinamentos da experiência através de simples conceitos... (Kant). "Por metafísica entendo toda pretensão a conhecimento que busque ultrapassar o campo da experiência possível, e, por conseguinte, a natureza, ou a aparência das coisas tal como nos é dada, para nos fornecer aberturas àquilo pelo qual esta é condicionada; ou para falar de forma mais popular, sobre aquilo que se oculta por trás da natureza, e a torna possível... “A diferença (entre a física e a metafísica) repousa, grosso modo, sobre a distinção kantiana entre fenômeno e coisa-em-si” (Schopenhauer). Metafísica Obra de Aristóteles, na verdade reunião de 12 tratados editados por Andrônico de Rodes, que lhes atribui este título e acabou por denominar uma das áreas mais centrais da filosofia. Nestes tratados, Aristóteles discute o problema do conhecimento e a noção de filosofia, introduzindo e conceituando algumas das noções mais centrais da filosofia como substância, essência e acidente, necessidade e contingência, verdade etc. Teve grande in-fluência no desenvolvimento da tradição filosófica, sobretudo a partir do séc.XII1, quando a obra de Aristóteles é reintroduzida no Ocidente. Foram inúmeros os comentários a esta obra, tanto na tradição do helenismo quanto entre os árabes e os escolásticos medievais.

Sofista (lat. sophista, do gr. sophistes)

Na Grécia clássica, os sofistas foram os mestres da retórica e oratória, professores itinerantes que ensinavam sua arte aos cidadãos interessados em dominar melhor a técnica do discurso, instrumento político fundamental para os debates e discussões públicas, já que na pólis grega as decisões políticas eram tomadas nas assembléias. Contemporâneos de Sócrates, Platão e Aristóteles, foram combatidos por esses filósofos, que condenavam o relativismo dos sofistas e sua defesa da idéia de que a verdade é resultado da persuasão e do consenso entre os homens. A metafísica se constitui assim, nesse momento, em grande parte em oposição à sofística. Devido a isso e ao triunfo da metafísica na tradição filosófica, ficou-nos uma imagem negativa dos sofistas como "produtores do falso" (segundo Platão em O sofista), manipuladores de opiniões, criadores de ilusões. Estudos mais recentes, entretanto, buscam revalorizar de forma mais isenta o pensamento dos sofistas, mostrando que seu relativismo baseava-se em uma doutrina da natureza humana e de sua relação com o real, bem como indicando a importância da contribuição dos sofistas para os estudos de gramática, retórica e oratória, para o conhecimento da língua grega e para o desenvolvimento de teorias do discurso. Não se pode falar, contudo em uma doutrina única, comum a todos os sofistas, mas apenas em certos pontos de contato entre várias concepções bastante heterogêneas.

Dentre os principais sofistas destacaram-se Górgias, Protágoras e Hípias de Elida. Das principais obras dos sofistas só chegaram até nós fragmentos, muitas vezes citados através de seus adversários, como Platão.

Protágoras (séc. V a.C.)

O grego Protágoras (nascido em Abdera) é um dos filósofos sofistas preocupado não com as cosmogonias e os sistemas, mas com a introdução de certo "humanismo" na filosofia. Ele prega uma espécie de relativismo ou de subjetivismo. De sua obra, ficou apenas uma frase: "O homem é a medida de todas as coisas, do ser daquilo que é, do não-ser daquilo que não é". Quer dizer: todo conhecimento depende do indivíduo que conhece; o vento só é frio para mim e no momento em que sinto frio; as qualidades do mundo variam com os indivíduos e no mesmo indivíduo; o aspecto do mundo não é sempre o mesmo; não há verdade nem erro: valem apenas as representações que são proveitosas e salutares. Temos aí uma espécie de "pragmatismo" humanista.

Sofística (do lat. sophisticus, do gr. Sophistike).

Denominação genérica do conjunto de doutrinas de filósofos contemporâneos de Sócrates e Platão, conhecidos como sofistas. A sofística se caracteriza pela preocupação com questões práticas e concretas da vida da cidade, pelo relativismo em relação à moral e ao conhecimento, pelo antropocentrismo, pela valorização da retórica e da oratória como instrumentos da persuasão que caracterizava a função do sofista, e, em conseqüência, pelo conhecimento da linguagem e domínio do discurso, essenciais para o desenvolvimento da argumentação sofística. A sofistica não chegou a constituir propriamente uma escola, porém o termo é utilizado, freqüentemente com sentido negativo, sobretudo para designar o contraste entre o racionalismo teórico e especulativo da filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles, com a atitude pragmática e antimetafísica dos sofistas.

Platão e o mundo do outro

Platão (c.427-348 ou 347 a.C.)

Filósofo grego, discípulo de Sócrates, Platão deixou Atenas depois da condenação e morte de seu mestre (399 a.C.) Peregrinou doze anos. Conheceu, entre outros, os pitagóricos. Retornou a Atenas em 387 a.C, com 40 anos, procurando reabilitar Sócrates, de quem guardava a memória e o ensinamento. Retomou a teoria de seu mestre sobre a "idéia", e deu-lhe um sentido novo: a idéia é mais do que um conhecimento verdadeiro: ela é o ser mesmo, a realidade verdadeira, absoluta e eterna, existindo fora e além de nós, cujos objetos visíveis são apenas reflexos. A doutrina central de Platão é a distinção de dois mundos: o mundo visível, sensível ou mundo dos reflexos, e o mundo invisível, inteligível ou mundo das idéias. A essa concepção dos dois mundos se ligam as outras partes de seu sistema: a) o método é a dialética, consistindo em que o espírito se eleve do mundo sensível ao mundo verdadeiro, o mundo inteligível, o mundo das idéias; ele se eleva por etapas, passando das simples aparências aos objetos, em seguida dos objetos às idéias abstratas e, enfim, dessas idéias as idéias verdadeiras que são seres reais que existem fora de nosso espírito; b) a teoria da reminiscência: vivemos no mundo das idéias antes de nossa encarnação" em nosso corpo atual e contemplamos face a face às idéias em sua pureza; dessa visão, guardamos uma mudança confusa; nós a reencontramos, pelo trabalho da inteligência, a partir dos dados sensíveis, por "reminiscência"; c) a doutrina da imortalidade da alma, demonstrada no Fédon. Das obras de Platão, as mais importantes são: Apologia de Sócrates (trata-se do discurso que Sócrates poderia ter pronunciado diante de seus juízes; descreve seu itinerário, seu método e sua ação); Hippias Maior (o que é o belo?); Eutifron (o que é a piedade?); Menon (o que é a virtude? Pode ser ensinada? São os diálogos constituindo o exemplo perfeito da maiêutica; são aporéticos: a questão colocada não é resolvida, o leitor é convidado a prosseguir a pesquisa após ter purificado seu falso saber); Teeteto (o que é a ciência? Expõe e faz a crítica da tese que faz derivar a ciência da sensação e que afirma ser o homem a medida de todas as coisas); Fédon (sobre a imortalidade da alma; diálogo que relata os últimos dias de Sócrates e trata da atitude do filósofo diante da morte); Crátilo (quais as relações entre as coisas e os nomes que lhes são dados? Há denominações naturais ou elas dependem todas da convenção?); O banquete (do amor das belas coisas ao amor do belo em si. Papel pedagógico do amor); Górgias (sobre a retórica; estuda a forma particular de violência que pode ser exercida pelo domínio da retórica e opõe a sofística à filosofia); A república (da justiça; definição do homem justo a partir do estudo da cidade justa; a cidade ideal, papel da educação, lugar do filósofo na cidade; como o regime ideal é levado a degenerar-se). Na República, no Político e nas Leis, Platão enuncia as condições da cidade harmoniosa, governada pelo filósofo rei, personalidade que governa com autoridade, mas com abnegação de si, com os olhos fixos na idéia do bem. A virtude suprema consiste no "desapego" do mundo sensível e dos bens exteriores a fim de orientar-se para a contemplação das idéias, notadamente da idéia do bem, e realizar esse ideal de perfeição que é o bem. Abaixo dessa virtude quase divina situa-se a virtude propriamente humana: a justiça, que consiste na harmonia interior da alma. Outros livros ou diálogos: Críton, Fedro, Parmênides, Timeu e Filebo. Toda a doutrina de Platão pode ser interpretada como uma crítica em relação ao dado sensível, social ou político, e com uma exortação a transformá-lo se inspirando nas idéias, cuja ação (cognitiva, moral e política) deve reproduzir, o mais fielmente possível, a ordem perfeita no mundo do futuro. Para realizar seu "projeto" filosófico, Platão funda a Academia, assim chamada por situar-se nos jardins do herói ateniense Academos.

Mundo sensível: realidade material, constituída pelos objetos da percepção sensorial; mundo da experiência. Especialmente em Platão, o mundo sensível opõe-se ao mundo inteligível, do qual é cópia.

Mundo inteligível: mundo das idéias ou formas, em Platão entendido como tendo uma realidade autônoma, tanto em relação ao mundo sensível, do qual constitui o modelo perfeito, quanto ao pensamento humano, que, no entanto o atinge pela dialética.

Alegoria da Caverna
No livro VII da República, Platão narra uma história que se tornou célebre com o nome de mito ou alegoria da caverna. Seu objetivo é fazer compreender a diferença entre o conhecimento grosseiro, que vem de nossos sentidos e de nossas opiniões (doxa), e o conhecimento verdadeiro, ou seja, aquele que sabe apreender, sob a aparência das coisas, a idéia das coisas. Numa caverna, cuja entrada é aberta à luz, encontram-se alguns homens acorrentados desde sua infância, com os olhos voltados para o fundo, não podendo locomover-se nem virar as cabeças. Um fogo brilha no exterior, iluminando toda a caverna. Entre o fogo e a caverna passa uma estrada, ladeada por um muro da altura de um homem. Na estrada, por detrás do muro, vários homens passam conversando e levando nas cabeças figuras de homens e de animais, projetadas no fundo da caverna. Assim, tudo o que os acorrentados conhecem do mundo são sombras de objetos fabricados. Mas como não sabem o que se passa atrás deles, tomam essas sombras por seres vivos que se movem e falam, mostrando serem homens que não atingiram o conhecimento verdadeiro. Platão descreve o processo dialético através do qual o prisioneiro se liberta e, lutando contra o hábito que tornava mais cômoda sua situação de prisioneiro, sai em busca do conhecimento da verdade, passando por diversos e sucessivos graus de conversão de sua alma, até chegar à visão da idéia de hem. Uma vez alcançado esse conhecimento, o prisioneiro, agora transformado em sábio, deve retornar à caverna para ensinar o caminho aos outros prisioneiros, arriscando-se, inclusive, a ser rejeitado por eles.

Platonismo – definições

1. Denominação da filosofia de Platão e de seus seguidores, ou de qualquer pensamento filosófico influenciado por Platão. Foi imensa a influência de Platão na formação da tradição filosófica ocidental, sendo que Whitehead chegou mesmo a afirmar que toda a filosofia ocidental não passa de um conjunto de notas de pé de
página à obra de Platão.

2. Historicamente, o platonismo desenvolveu-se juntamente com a Academia fundada por Platão em 338 a.C., existindo até o ano 529 da era cristã, quando o imperador romano Justiniano, em Constantinopla, ordenou o fechamento das escolas filosóficas pagãs. O pensamento da Academia, entretanto, passa por períodos distintos, não se limitando a uma simples preservação, comentário e difusão do pensamento de Platão, mas interpretando-o de diferentes maneiras, incluindo uma fase cética. O platonismo não se restringe, contudo, apenas à doutrina transmitida pela Academia. Sua importância durante o helenismo é muito grande, dando origem ao neoplatonismo. Também o desenvolvimento da filosofia cristã com a escola de Alexandria, a escola de Capadócia e o pensamento de Santo Agostinho são diretamente influenciados pelo platonismo. Durante todo o período medieval, até pratica-mente o século XII, quando a obra de Aristóteles torna-se mais conhecida no Ocidente, o platonismo foi a filosofia predominante, devido basicamente à influência do pensamento de Santo Agostinho. Por sua vez, o fechamento da Academia em 529 acarretou a emigração dos filósofos platônicos para o Oriente, sobretudo para a Pérsia, fazendo com que o platonismo tivesse também posteriormente grande importância na formação do pensamento árabe. Embora perca, em parte, sua influência a partir do séc.XIII, devido ascensão do aristotelismo, o platonismo ressurge durante o Renascimento. Mesmo no pensamento moderno e contemporâneo, muitas das questões tratadas nos diálogos de Platão continuam a ser discutidas, e esses diálogos continuam a ser estudados e comentados.

3. O platonismo, no entanto, não está ligado apenas à obra e ao pensamento de Platão, mas, em linhas gerais, caracteriza-se pelo dualismo entre corpo e alma, matéria e espírito, inteligência e sensação: pela crença em um mundo de formas ou objetos abstratos, autônomo de nosso conhecimento; pelo espiritualismo e a crença em uma doutrina da reminiscência: pelo recurso à dialética como forma de elevação do espírito para além do mundo sensível; por uma visão política que defende uma aristocracia do espírito nos moldes da República. Em muitos dos filósofos que podem ser considerados representantes do platonismo podemos encontrar, freqüentemente, uma ou algumas dessas características, embora não necessariamente todas. E nesse sentido, por exemplo, que podemos falar contemporaneamente em filosofia da matemática, no platonismo de Frege, na medida em que este considera os objetos matemáticos (tais como os números) existentes independentemente de nosso pensamento e de nosso conhecimento sobre eles.

Dialética (lat. dialectica, do gr. dialektike: discussão)

Em nossos dias, utiliza-se bastante o termo "dialética" para se dar uma aparência de racionalidade aos modos de explicação e demonstração confusos e aproximativos. Mas a tradição filosófica lhe dá significados bem precisos.

1. Em Platão, a dialética é o processo pelo qual a alma se eleva, por degraus, das aparências sensíveis às realidades inteligíveis ou idéias. Ele emprega o verbo dialeghestai em seu sentido etimológico de "dialogar", isto é, de fazer passar o logos na troca entre dois interlocutores. A dialética é um instrumento de busca da verdade, uma pedagogia científica do diálogo graças ao qual o aprendiz de filósofo, tendo conseguido dominar suas pulsões corporais e vencer a crença nos dados do mundo sensível, utiliza sistematicamente o discurso para chegar à percepção das essências, isto é, à ordem da verdade.

2. Em Aristóteles, a dialética é a dedução feita a partir de premissas apenas prováveis. Ele opõe ao silogismo científico, fundado em premissas consideradas verdadeiras e concluindo necessariamente pela "força da forma", o silogismo dialético que possui a mesma estrutura de necessidade, mas tendo apenas premissas prováveis, concluindo apenas de modo provável.

3. Em Hegel. A dialética é o movimento racional que nos permite superar uma contradição. Não é um método, mas um movimento conjunto do pensamento e do real: "Chamamos de dialética o movimento racional superior em favor do qual esses termos na aparência separados (o ser e o nada) passam espontaneamente uns nos outros, em virtude mesmo daquilo que eles são, encontrando-se eliminada a hipótese de sua separação". Para pensarmos a história, diz Hegel, importa-nos concebê-la como sucessão de momentos, cada um deles formando uma totalidade, momento que só se apresenta opondo-se ao momento que o precedeu: ele o nega manifestando suas insuficiências e seu caráter parcial; e o supera na medida em que eleva a um estágio superior, para resolvê-los os problemas não-resolvidos. E na medida em que afirma urna propriedade comum do pensamento e das coisas, a dialética pretende ser a chave do saber absoluto: do movimento do pensamento, poderemos deduzir o movimento do mundo: logo, o pensa mento humano pode conhecer a totalidade do mundo (caráter metafísico da dialética).

4. Marx faz da dialética um método. Insiste na necessidade de considerarmos a realidade socioeconômica de determinada época como um todo articulado, atravessado por contradições específicas, entre as quais a da luta de classes. A partir dele, mas graças, sobretudo, à contribuição de Engels, a dialética se converte no método. do materialismo e no processo do movimento histórico que considera a Natureza: a) como um todo coerente em que os fenômenos se condicionam reciprocamente; b) como um estado de mudança e de movimento: c) como o lugar onde o processo de crescimento das mudanças quantitativas gera, por acumulação e por saltos, mutações de ordem qualitativa: d) como a sede das contradições internas, seus fenômenos tendo um lado positivo e o outro negativo, um passado e um futuro, o que provoca a luta das tendências contrárias que gera o progresso (Marx-Engels).

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