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A verdadeira sabedoria é saber o quão pouco nós realmente sabemos.

Sócrates

07/04/2010

Os pré-socráticos na filosofia antiga

DOS FILÓSOFOS DA NATUREZA AOS SOFISTAS


Este trabalho foi desenvolvido para apresentação no curso de filosofia da Universidade Metodista do Estado de São Paulo - Campus EAD de Londrina-Pr.
Equipe: Agustavo Caetano dos Reis
Henrique Ferraz da Batista
Anderson Francisco Proença
Vale destacar que o trabalho foi feito em equipe, mas o seu desenvolvimento foi realizado pelo acadêmico Agustavo C. dos Reis.

INTRODUÇÃO

“[...] por meio dessas interpretações dos pré-socráticos fica evidente que a compreensão prévia do que é filosofia determina o teor do diálogo com a tradição, de forma que estudar a história da filosofia antiga já é um exercício filosófico.” Assim se manifesta o Professor Frederico Pieper Pires em seu texto apresentado no material de apoio, (PIEPER, 2009, p. 30,31). Muitas críticas existem quanto ao modo de pensar filosófico, inclusive hoje em dia a Filosofia é tida como “[...] a ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual’. Ou seja, a Filosofia não serve para nada.” (CHAUI, 1999, p.12). Ao nos aprofundarmos no campo da história da Filosofia nos embebemos de suas origens e de seus desbravadores e assim podemos começar a refletir de maneira proveitosa e percebermos o quanto a Filosofia é importante e mais, o quanto os Filósofos antigos foram cruciais para o desenvolvimento do pensar da humanidade.
O texto abaixo inspirado na obra de G. Reale, (REALE, 1990 p. 29-84) procura demonstrar essa colocação abrindo um parênteses curto e suscinto sobre os filósofos da época pré-socrática e trazer à lume uma pequena parcela da contribuição importante que os mesmos deixaram para a humanidade.
APRESENTAÇÃO
Ao nos debruçarmos por sobre a obra filosófica de Giovanni Reale “Antiguidade e idade média – Os pré-socráticos e os sofistas”, nos deparamos com a forma simples e objetiva com a qual o autor conduz o leitor a compreender melhor o mundo filosófico antigo. Ele passeia do mais antigo até o mais recente dos pensadores, em especial será analisado o período pré-socrático e os filósofos da natureza; assim como sua transição para o pensamento sofista, procurando compreender suas características em comum e seus distanciamentos.
Igualmente, importa ressaltar que ao buscarmos responder à indagação proposta para a atividade, fica distante a possibilidade de apresentarmos um trabalho totalmente impessoal (embora em grupo – precisamos concordar com o cerne da ideia), por tal, procuramos da melhor forma possível tentar escapar dessa armadilha. Senão vejamos:
Segundo Reale,
[...] o pensamento de Tales e dos primeiros físicos, o “princípio” é “aquilo do qual derivam originariamente e no qual se ultimam todos os seres”, é “uma realidade que permanece idêntica no trasmutar-se de suas alterações”, ou seja, uma realidade “que continua a existir imutada, mesmo através do processo gerador de todas as coisas”. (Grifo nosso).
Assim, pode-se perceber que Tales, o primeiro Filósofo de Mileto, é quem iniciou o labor com a physis e por tal, a trabalhar com a natureza; essa sua vereda deu origem aos filósofos considerados como físicos ou naturalistas, baseando sua afirmação no puro raciocínio lógico, quando os demais tinham base na imaginação ou no mito. A racionalidade era a base de Tales em contrapartida com as outras crenças fantásticas e poéticas que alicerçavam o pensamento mitológico. Tales define sua máxima em que a água, ou o úmido que era presente nas formas de vida é a fonte de vida e de todas as coisas, tendo um princípio formador divino. Assim, ele marca este período em apresentar a forma de vida como proveniente de origem única.
Olhemos um pouco para Anaximandro (também de Mileto) para quem o problema do princípio é mais profunda e defende que a água deriva do infinito, mas ainda fixo na natureza.
Outro dos sábios de Mileto foi Anaxímenes que raciocinava que o “princípio” deveria ser pensado como ar infinito, ou substância aérea ilimitada.
Heráclito de Éfeso, pensava que “tudo se move, tudo escorre”, nada permanece imóvel e fixo, sem exceção. Segundo Reale: “O devir ao qual tudo está destinado caracteriza-se por uma contínua passagem de um contrário ao outro: as coisas frias esquentam, as quentes esfriam [...]”, e assim sucessivamente. Tudo é um e do um deriva tudo. Entretanto, verificamos que ele ainda adjudica ao fogo “natureza” de todas as coisas.
Chegamos – para sermos sucintos – assim à Pitágoras e, por reflexo, aos pitagóricos, ou seja, os que eram chamados ou que se chamavam, filósofos que procuravam juntos a verdade e assim não se diferenciavam uns dos outros. Os pitagóricos chegam aos números e assim o indicaram como sendo o princípio – ao invés da água, do ar ou do fogo. A regularidade matemática de todas as coisas acabou sendo uma descoberta importante que mudou o pensamento espiritual do Ocidente. Para o pensamento pretérito, o número era uma coisa real, e por tal é que veio a ser considerado o “’princípio” das coisas. Os pitagóricos também se destacaram por outra maneira de pensar; sua ciência era fomentada como um meio para um este consistindo na prática de um tipo de vida capaz de purificar e libertar a alma do corpo, segundo Reale.
Já Xenófanes se dispunha a refutar o antropomorfismo (forma de pensamento que atribui características e/ou aspectos humanos a Deus, deuses, elementos da natureza e constituintes da realidade em geral. Nesse sentido, toda a mitologia grega, por exemplo, é antropomórfica.) e denunciar as afirmações errôneas da religião tradicional, todavia, ainda mantinha restrito à Filosofia derivada da physis.
Parmênides se apresenta como um renovador radical. Na Filosofia da physis a cosmologia recebe uma transformação para uma ontologia, ou seja, uma teoria sobre o ser. Assim, o ser de Parmênides é “todo igual”, eis que o “o ser se amalgama com o ser”, sendo impensável “um mais de ser” ou “um menos de ser”.
Zenão, por sua volta, fundou o método da dialética a qual maravilhou os antigos. Segundo Reale, “Os seus argumentos mais conhecidos são os que refutam o movimento e a multiplicidade”. Ainda consoante o autor: “[...] Longe de serem sofismas vazios, esses argumentos constituem poderosos empinos do logos, que procura contestar a própria experiência [...].
Melisso de Samos sistematizou a doutrina eleática; defendeu que o ser deve ser “infinito” eis que não possui limites temporais tampouco espaciais. Reale escreve que “[...] o eleatismo se concluiu com a afirmação de um Ser eterno, infinito, uno, igual, imutável, imóvel, incorpóreo [...]”.
Empédocles era considerado um dos físicos pluralistas, que procurou resolver a aporia eleática. Segundo ele, não existem “nascimento” e “morte” e sim algumas substâncias que permanecem eternamente iguais: água, ar, terra e fogo, as quais ele chamou “raízes de todas as coisas”. Introduziu ainda as força do amor e da amizade bem como do ódio e da discórdia, como consequência da união (ou separação) dos elementos anteriores, fixados pelo destino.
Anaxágoras (de Clazômenas) seguiu tentando resolver a dificuldade da eleática. Atribui-se a ele o termo homeomerias qual seja, por sua vez, “partes semelhantes”, “partes qualitativamente iguais”. Para Anaxágoras: “Tudo está em tudo”, tal como o pão que ao ser ingerido passa a ser cabelo, pele, olhos... Tudo está no ser desde sempre e para sempre.
Por sua volta, Lêucipo e Demócrito, buscaram resolver essas questões do eleatismo mantendo-se na natureza e assim chegaram à descoberta do conceito do átomo. “Reafirmaram,” – escreve Reale – “a impossibilidade do não-ser, sustentando que o nascer nada mais é do que ‘um agregar-se de coisas que já existem’ e o morrer ‘um desagregar-se’[...]”. Esse átomo a que eles se referiam levava o selo do modo de pensar especificamente grego, indicando uma forma originária, ou ainda, a forma visível ao intelecto. (Destaque nosso). Os atomistas colocaram o mundo “ao saber do acaso”.
Terminando por combinar as idéias dos Filósofos anteriores, Diógenes e Arquelau (aquele de Apolônia, este de Atenas), ainda mantêm-se ligados à physis. Diógenes sustentava que se os princípios fossem muitos, de natureza diferente entre si, não se poderiam misturar nem agir um sobre o outro, necessitando que tudo nascesse por transformação oriunda de um mesmo princípio. Ele combinou a inteligência com o princípio-ar. Com esse último raciocínio, Reale encerra os físicos para ingressar no mundo dos sofistas, sob uma ótica um tanto quanto otimista.
Os sofistas eram considerados os especialistas do saber, entretanto, os sofistas foram duramente criticados pelos Filósofos Platão e Aristóteles – e até mesmo por Sócrates, que por sua vez era um sofista, ou pelo menos se valia das estratégias sofistas para seus discursos – pois acreditavam que os sofistas eram superficiais, aparentes e pior, não-efetivos, eis que suas buscas pela verdade eram desinteressadas e almejavam lucro com o ensinar. A inconsistência das ideias dos sofistas foi considerada tão terrível que entenderam que o pensamento grego passou por uma grave decadência.
Entretanto, Reale ressalta que W. Jaeger entende que os sofistas não eram tão ruins assim, Reale destaca o seguinte trecho de Jaeger: “[...] os sofistas são um fenômeno tão necessário quanto Sócrates e Platão; aliás, sem eles, estes ao absolutamente impensáveis”. Os sofistas foram considerados o protótipo dos primeiros Professores atuais, trabalhavam e recebiam para passar conhecimento. Os sofistas tiram de lugar o eixo da reflexão filosófica da physis – um dos pontos principais, se não o principal, na diferença entre os naturalistas (físicos) e os sofistas. – e do cosmos para o homem como membro de uma sociedade. Entende o autor que a sofística tenha feito a cultura do homem, nascendo, assim, um período humanista da filosofia antiga.
Os físicos haviam chegado ao seu limite e não conseguiram responder a tudo e isso facilitou o surgimento do sofismo, bem como fermento de ordem social, econômica e cultural. Os sofistas respondiam às reais necessidades dos jovens da polis. Como já foi lembrado, com eles a objetivação prática das doutrinas sofistas solucionam o problema educacional e o compromisso pedagógico emerge para um plano superior, de destaque. Defendem que a virtude se funda no saber e não no status social. Romperam um esquema social que limitava o saber, a cultura à camadas nobres, levando (o saber) à público – muito embora público este pagante.
Assim, os estreitos limites da cidade não tinham mais razão de ser, estenderam o conhecimento para fora dos portões da Grécia. Tinham uma notável liberdade de espírito, segundo Reale, em relação à tradição, às normas e comportamentos; confiavam nas possibilidades da razão. E não estavam só, assim como os pitagóricos, “eram um complexo de esforços independentes para satisfazer, com meios análogos, a necessidades idênticas”, de acordo com o citado L. Robin.
Protágoras, para nomearmos alguns dos sofistas conhecidos, defendeu a tese de que “o homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são e daquelas que não são por aquilo que não são”, ou seja, o princípio do homo mensura. Protágoras pretendia negar a existência de um critério que discriminasse ser e não-ser, verdadeiro e falso e esse critério uno é o homem, assim, o bem e o mal, seria o útil e o danoso, o melhor e o pior seriam o mais útil e o mais danoso, sendo o útil um conceito relativo.
Górgias se destaca pela retórica, partindo do niilismo – descrença absoluta – para construir a sua retórica. Na nossa parca opinião, Górgias foi um radical sensacional, pois ele enxerga o óbvio: todos os filósofos anteriores que falaram e disseram sobre o ser, o fizeram de tal modo que se anulavam reciprocamente! Por isso, ele deixou seu raciocínio da seguinte forma: diante de tanta contradição, o ser não existe, assim só existe o nada (destaque nosso). Outro ponto era o de que se o ser fosse existente, ele não poderia ser reconhecido ou conhecido pelo homem, pois o não-ser é impensável. Se fosse pensável ele – o ser – seria inexprimível, pois a verdade não pode ser transmitida através do verbo. Górgias ainda demonstra uma ética da situação, onde os deveres variam de acordo com o momento. A retórica de Górgias é definida como a arte de persuadir.
Pródico também mestrou-se na arte dos discursos. Baseava-se na sinonímia, ou melhor, na distinção entre vários sinônimos.
Fica claro aqui que os sofistas se contrapuseram à natureza com a lei. Isso ocorre principalmente em Hípias, em Élida e em Antifonte. Hípias ensinou a arte da memória e tinha um conhecimento que abrangia todo o saber (enciclopédico), mas, o interessante era que ele defendia a natureza, pois entendia que ela unia o homem ao passo que a lei exercia força contrária. Nasceu o direito natural e o direito estabelecido pelo homem. Veja que Antifonte pensa que a natureza é a verdade e que a lei é opinião, estando em antítese uma com a outra. Antifonte pode ter sido um dos precursores da libertação posterior dos escravos, pois defendia a igualdade entre todos os homens.
Mas os sofistas foram corrompidos quando a antilogia de Protágoras culminou por gerar a eurística, a arte da controvérsia com palavras que tem por fim a própria controvérsia. Assim quem soubesse discursar melhor e defender sua opinião, mesmo que absurda, poderia vencer um debate.
Bem ainda nos baseando na obra de Reale, concluímos que os sofistas realizaram uma mudança das pesquisas da natureza para o homem, abrindo uma vereda para a moral. Os naturalistas já vinham também tecendo sua obra projetiva de mudanças, quando criticaram as questões antropomórficas do divino como “princípio”. Os sofistas também rejeitaram os velhos deuses, mas também a busca do “princípio” na natureza, assim caminharam para negar o divino em favor do homem. Os naturalistas contrapuseram o logos – razão - às aparências, só nele reconhecendo a verdade. Os sofistas rejeitaram a razão como pensamento. Assim, Reale defende que essas tentativas de acertos e erros, terminaram por fazer com que se perdesse o ser e a verdade. Sabemos que fomos “profundamente” superficiais, mas urge exercitarmos nossa capacidade de síntese e não desenvolvermos um tratado aqui.
CONCLUSÃO
Conclui-se, portanto, que a Filosofia Antiga possui como marca de origem o período pré-socrático, que engloba em especial, a Filosofia da Natureza. Nesta fase, começou a se pensar racionalmente abandonando a mitologia, o que marcou a história do pensamento. Mais adiante, a Filosofia passou a ser mais ética, política, social, representada pelo movimento Sofista, voltado à sabedoria. Ambos ocuparam-se de um pensamento racional, porém distanciaram-se em fazer abordagens diferenciadas. Contudo, o papel de cada período filosófico, apresenta-se de forma relevante ao construir não somente a história da filosofia, como seu próprio caráter pensante.
REFERÊNCIAS
CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo-SP, Ática, 1999.
PIRES, Frederico Pieper. Os pré-socráticos. Guia de Estudos. Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo: Ed. do Autor, 2009.
REALE, Giovanni. História da filosofia – Antiguidade e idade média – Os pré-socráticos e os sofistas. São Paulo-SP. Ed. Paulus, 1990. P. 29-84.

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