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A verdadeira sabedoria é saber o quão pouco nós realmente sabemos.

Sócrates

19/09/2010

Hegel e a realização plena da metafísica (Heidegger)


O propósito de Heidegger é, a partir desse percurso, estabelecer uma discussão com a obra de Hegel, pois nela a Metafísica reúne todas as forças essenciais da história do pensamento ocidental. Em Hegel, a Metafísica atingiu seu ponto mais alto e está, a partir dele, completada. Até Hegel, encontra-se a história da plenificação da metafísica e, depois dele, no século XIX, o projeto que visa a sua inversão a partir das obras de Kierkegaard e, sobretudo, Nietzsche.
Heidegger pretende esclarecer em que medida a Metafísica entrou, no século XX, no ápice de seu processo de consumação, reivindicando uma reflexão cuja tarefa será reconquistar a tradição em sua essência impensada para o futuro. Não se deve, portanto, interpretar a Metafísica a partir da tradição, mas pensar a “Metafísica” através de uma compreensão originária do que se apresenta como impensado em sua história.
Para isso, Heidegger se debruça sobre os grandes textos da tradição, mas para trazer à linguagem aquilo que neles permaneceu esquecido.
Essa preleção é relevante para observarmos o caráter ambíguo do termo “Metafísica” na obra de Heidegger até os anos 30. De “Ser e Tempo” até a preleção de 1935, intitulada “Introdução à Metafísica”, o autor tentará efetuar uma fundação crítica da Metafísica, ou seja, dar um novo conteúdo à palavra “Metafísica” a partir de uma outra posição face ao ser, redescoberto em seu sentido originário: o tempo. Porém, mais tardiamente, o termo “Metafísica” será definitivamente identificado com a tradição e contraposto aos termos “pensamento”, “pensamento essencial”, “outro pensamento” ou “pensamento do ser”.
A Metafísica pensa o ser sob a forma da substancialidade e da subjetividade sem, contudo, interrogar-se pelo ser em vista daquilo que o determina como tal. A Metafísica, desde o começo até sua plenitude, busca somente fundar a verdade do ente em seu desvelamento, mantendo fora de questão o ser ele mesmo e naquilo que lhe é próprio: o velamento.
O projeto condutor da Metafísica, onde se movimenta a história do Ocidente, é trazer à enunciação (lógos) o ente em seu ser (ontos), tornando manifesta a sua entidade a partir de sua causa suprema e do seu fundamento mais elevado: Deus (théos). Deste modo, trata-se de uma onto-teo-logia, isto é, da busca pela enunciação lógico-categorial da entidade do ente que, por sua vez, determina-se a partir do seu fundamento transcendente.
Com o fim da Metafísica, oculta-se um outro começo para o pensamento a partir de um outro horizonte de questionamento do ser em sua diferença referente ao ente. Assim, Heidegger considera que a filosofia se estrutura em torno de uma dinâmica histórica entre o passado e o futuro que insere a época presente no desafio de um fim e no apelo de uma transformação. É por isso que uma discussão com a obra hegeliana nos fornece o senso da nossa atualidade histórica e uma apreensão do núcleo no qual se reúne o todo da história da Metafísica.
A segunda preleção, do semestre de inverno de 1933/1934, repete o texto várias vezes alterado da preleção pronunciada no semestre de inverno de 1931/1932 com o mesmo título. Após uma introdução sobre a questão da essência da verdade, Heidegger divide a preleção em duas partes: a primeira parte consiste em uma interpretação da célebre “Alegoria da caverna”, narrada por Platão no diálogo “República” (Politéia), e a segunda parte apresenta uma reflexão sobre o diálogo Teeteto visando à questão sobre a relação entre verdade e não-verdade bem como entre episteme e dóxa.
Para Heidegger, o conceito de verdade da Metafísica só tem olhos para a verdade da essência e nunca para essência da verdade. Quando pensamos na palavra “verdade”, concebemos imediatamente a forma derivada da verdade do conhecimento e da enunciação. Heidegger, porém, pensa a verdade como desvelamento que, por sua vez, é algo mais originário que a verdade no sentido da veritas. Alétheia é a palavra grega pronunciada na origem do pensamento ocidental e que nos dá o aceno para a essência impensada da verdade.
A verdade enquanto veritas se inscreve no empenho por presentificar no pensar e no dizer aquilo que o ente é tal como é. Trata-se de garantir a adequação (adaequatio) entre o pensar e o ente tal como é, mas a “verdade predicativa” é sempre derivada, pois para que o ente possa se revelar na proposição tal como ele é, é preciso, em primeiro lugar, que ele tenha se manifestado naquilo que é em si mesmo e antes de qualquer determinação proposicional. É somente porque o ente já sempre se abriu como presente na livre dimensão do desvelamento que ele se presta à determinação predicativa. Só na dimensão prévia desse desvelamento em que o ente se faz presente como tal que é possível instaurar uma referência com ele tal como é.
O fenômeno originário da verdade só é possível com base na abertura (Da) do ser (sein) na qual o homem descobre a si mesmo sempre já lançado como ser-no-mundo. Ser verdadeiro é, então, deixar e fazer ver o ente em seu estar aberto, retirando-o do velamento. Assim, a verdade só é possível com base na abertura do ser, e o homem é a estância que o ser carece para sua abertura. O fenômeno originário da verdade pertence à constituição ontológica do homem (Dasein), pois descobrir o ente em seu desvelamento é constitutivo de sua abertura factual em um mundo específico no qual ele está lançado.
Por esta via, a verdade é originariamente um destino da finitude do homem e não tem nada a ver com a sobriedade e a indiferença de proposições demonstradas.
Segundo Heidegger, a metafísica platônica expressa o combate fundamental entre essas duas dimensões da verdade (predicativa e manifestativa). E é na “Alegoria da caverna”, com seus quatro estágios de libertação e retorno da caverna, que esse combate se expressa de modo mais agudo e elevado. É só no retorno daquele que se liberta que se mostra efetivamente a situação do homem na caverna subterrânea diante das sombras projetadas ao fundo.
Somente ao libertado aparece o modo como tal circunstância não é contingente e, muito menos, imputável ao mero engano, pois ela nasce de um comportamento do homem para com a verdade que, desde “Ser e Tempo”, Heidegger denominou como “decadência” ou “dissimulação”. Trata-se de um modo de encobrimento ou não-verdade.
Na caverna, o desvelamento não desaparece, mas desenraiza-se ou deturpa-se, pois se mostra no modo da aparência. Esse encobrimento reside no modo de ser com os outros e na ocupação cotidiana do homem com este ou aquele ente em seu caráter revelado. Nesse processo de libertação, o libertado vê que estar na verdade e ser o lugar (Da) da manifestação do ser (Sein) não significa ser um ente presente-subsistente, mas estar inserido numa dinâmica de apropriação de si mesmo, de ter que vir a ser, a cada vez, o poder-ser que se é, precisando sempre e a cada vez liberar as suas próprias possibilidades existenciais.
REFERÊNCIAS
PIEPER, Frederico. Metafísica, Epistemologia e Linguagem. 2ª edição, Guia de Estudos. Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo: Ed. do Autor, 2010.
BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao Pensar, o Ser, o Conhecimento, a Linguagem, 2ª Edição, Petrópolis. Ed Vozes. 1991.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia, 13ª Edição, São Paulo. Ed Àtica. 2008.


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