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A verdadeira sabedoria é saber o quão pouco nós realmente sabemos.

Sócrates

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23/06/2010

Livre Arbítrio


Santo Agostinho era possuidor de um coração extremamente inquieto e tinha em seu pensamento questionamentos que amenizassem sua ansiosa busca por respostas a tudo o que dizia a respeito à relação do homem com Deus.
Agostinho nasceu no ano de 354, em Tagaste, África do Norte, filho de Patrício, pagão, batizado na hora da morte, e Mônica, de quem recebeu educação cristã.
No que diz respeito ao Livre arbítrio, Agostinho utiliza-se da inspiração adquirida a partir das leituras de obras filosóficas que fizera de Cícero, Porfírio ou Plotino para argumentar de forma racional, portanto filosófica, na sua obra Do Livre Arbítrio. Os argumentos de Santo Agostinho, bem como seu raciocínio, são sempre cristãos, o que nos leva a concluir que a obra em questão é fruto de sua fé e de sua inteligência.
Agostinho apoia-se nas Escrituras Sagradas para fundamentar todos os seus argumentos e utiliza-se da filosofia, ainda que tudo venha a ser filtrado por sua reflexão pessoal, para racionalmente argumentar sobre os fatos de que trata em sua obra. Agostinho faz uso de uma máxima, adaptada da passagem de Isaías, capítulo 7, versículo 9, para fundamentar sua doutrina: “Nisi credideritis, non intelligetis” (“Se não crerdes, não entendereis”), e O Livre Arbítrio é escrito sob este prisma.
Em sua obra, Agostinho persiste na necessidade de somar à inteligência a substância da fé. O douto filósofo, para não encurtar o caminho, procura não recorrer à fé, sem que se possa alcançar a inteligência, com a intenção de mostrar que a fé não é negada pela razão, ou vice-versa, mas que, sendo a verdade universal e eterna, pode ser captada finalmente por ambas.
No início de seu diálogo com Evódio, este lhe pergunta se seria Deus o autor do mal. Agostinho passa, então, a discorrer sobre a natureza do mal, objetivando, antes de responder à indagação do amigo, saber qual o objeto de sua investigação, para depois procurar a resposta sobre a origem desse objeto.
Agostinho conduzirá Evódio à compreensão de que o mal não possui substância, que o mal não é nada, afirmando que não existe outra realidade que não seja a vontade própria e o livre arbítrio que torne a mente humana escrava das paixões, pois “Sem o livre arbítrio, não haveria mérito ou demérito, glória nem vitupério, responsabilidade nem irresponsabilidade, virtude nem vício”, diz Agostinho.
A questão é introduzida por Evódio, que deixa claro que adota os mesmos princípios que Agostinho adotara em sua juventude. Evódio, ansiando por encontrar uma origem do mal, pergunta a Agostinho se Deus seria o criador do mal, já que tudo o que existe foi criado por Deus – e já que o mal existe.
Agostinho, com sua lógica, faz então a diferença entre os dois conceitos de mal: o malum culpae, que seria o mal praticado por aqueles que, por sua própria culpa, afastam-se do sumo Bem, “adorando e servindo às criaturas em lugar do criador”, surgindo por intermédio da vontade livre do homem que se permite seduzir pelas paixões, e o malum poenae, que seria uma conseqüência do malum culpae, pois a quem se afasta do Bem não resta outra recompensa senão aproximar-se do mal e privar-se da presença da Verdade.
Com isso, Agostinho aponta que a causa dos males que praticamos é, pois, o livre arbítrio, e a causa dos males que sofremos, o justo julgamento divino. Com relação aos males que sofremos como frutos do juízo de Deus, Agostinho nos diz que seu único objetivo seria o bem, pois visa restabelecer a ordem em nossas vidas.
No entanto, agir objetivando a restituição à ordem perdida não é um mal, sendo considerado como tal apenas por aqueles que são “vítimas” de tal correção e que não se dão conta de que serem corrigidos por Deus é um bem.
Agostinho ressalta ainda, que onde Deus seria culpado por ter dado ao homem a capacidade de escolher entre o bem e o mal com o seu livre-arbítrio, Agostinho diz a Evódio que o mal se traduz em desejo culposo (concupiscência), como nos casos de adultério, homicídio e sacrilégio, considerados graves pela Igreja. Ainda que os membros do nosso corpo se tornem instrumentos de mal e se empenhem em coisas más, não deixam de ser, em si, um bem; da mesma forma, o livre-arbítrio. Deus só poderia ser culpado se o mal tivesse suas raízes na essência do livre-arbítrio; porém, o mal está em um defeito de si mesmo, num desfalecimento da vontade, que se deixa seduzir pelos bens sensíveis, pelos deleites, postos acima do bem supremo que é Deus.
É importante deixarmos claro que há uma distinção, ainda que sutil, entre liberdade e vontade, ou livre arbítrio, pois para Agostinho vontade e livre arbítrio são a mesma coisa e fazem parte da essência do homem. Comparando a liberdade com o livre arbítrio, a diferença é que o livre arbítrio seria a capacidade de escolha que está presente no homem e a liberdade como à eficácia que essa escolha alcança ao aderir à verdade.
Assim, a liberdade, seria a capacidade que o homem tem de escolher o bem e evitar o mal. Consequentemente, a liberdade do homem se realiza plenamente quando este adere, por livre vontade, ao bem, afastando-se do mal; quando se distancia da ausência e acolhe o Ser.
Agostinho eleva sobremaneira a vontade do homem; sabe que nada na natureza, principalmente a mais excelente das criaturas, pode ser contrário a Deus. O homem ainda que mutável e criado do nada, apenas pode falhar por ser livre em sua vontade.

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